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A amizade no mutirão

Cervejas no Escuro (Tiago A. Neves, 2023, Paraíba)

por Pedro Henrique Ferreira

         Após a morte do marido, Edna (Edna Maria) vai tomar cerveja com um grupo de amigos. A luz do bar acaba, e eles continuam sentados por lá, entornando. Quando tudo acende de novo, a viúva resolve que precisa fazer um filme para participar de um festival de cinema da região. Enternecidos, os amigos e familiares resolvem mobilizar o bairro de Princesa Isabel, em Pernambuco, para ajudá-la. Esta é a premissa de Cervejas no Escuro. A trama do filme de Edna seria um retrato de sua relação com o falecido e uma maneira de dar vazão a seu luto, transformá-lo em imagem. Só que tudo vai dando errado. E então, a equipe resolve encenar o episódio da Revolta de Princesa em 1930, evento marcante da história da cidade, quando ela declarou independência do Estado.

           Do ponto de vista formal, logo de cara fica evidente que o longa-metragem de Tiago A. Neves emula um pouco um estilo deficitário – a câmera trêmula e vacilante, os enquadramentos com excesso ou falta de teto, o roteiro um tanto solto, calcado no artifício metalinguístico, o som mal captado e sem um trabalho rigoroso de mixagem, a dramaturgia um pouco rígida. O recrudescimento serve para aproximar-se do universo que retrata, um ethos comunitário na cidade de Princesa, pessoas um tanto comuns indo atrás de sonhos longínquos e fazendo seu melhor para conquistá-lo. Em suma, o ritmo e espírito da vida coletiva num bairro de subúrbio, com personagens mais pobres, cenas um tanto cômicas e afáveis sobre eles e suas relações. Um primo distante de um Temporada (André Novais Oliveira, 2018) ou de um Ilha (Ary Rosa e Glenda Nicácio, 2018), menos inventivo que ambos, porém outro filme cuja mais-valia se encontra nestes intervalos cotidianos, brechas da vida comum, que também deixam a narrativa frouxa, testam sua elasticidade, propõem viradas súbitas e rumos inesperados no desenrolar da trama. O interesse do longa-metragem está precisamente nestes aspectos.

              Vermelho Bruto (Amanda Devulsky, 2023) e Cervejas no Escuro não poderiam ser mais antípodas (um de acorde grave, documentário experimental com material de arquivo doméstico, o outro, uma comédia metalinguística bem despojada) e, no entanto, há uma similitude pouco óbvia que, vendo-lhes lado a lado na mesma sessão da Mostra de Tiradentes, se faz notável: são ambos esforços de articulação entre experiência/memória individual e episódios de uma macro-história. Aqui, o jogo é aproximar uma data marcante na história do município – a Revolta de Princesa – com o passado pessoal da personagem que faz um filme para contar sua própria micro-história. O interessante é que esta ‘aproximação' não gera confluência, mas desvio – ela desiste de um filme para fazer outro, e acaba fazendo os dois em um. Mas eles não se colam, não ‘confluem' – é preciso sair de um para entrar no outro. Eles brigam; e não há metáfora melhor para esta situação que a ocasião em que um dos amigos de Edna interrompe a filmagem para criticar o historiador frente às câmeras que, em tom polido, descreve uma história objetiva da cidade. Este efeito de divergência faz enfatizar o fato de que, ao encapsular uma experiência não-hegemônica de vida, Cervejas no Escuro não quer assim disputar a narrativa da macro-história; e sim afirmar a autonomia da experiência pessoal, o todo como uma multiplicidade caleidoscópica de experiências pessoais e coletivas. Esta extrema singularidade da experiência individual gera alguns gags cômicos, como, por exemplo, quando Edna pede a dois atores que façam uma cena de paixão entre ela e seu marido com os costumes de seu tempo, e como aconteceu na sua memória, e os dois só conseguem fazer a pegação de um jeito próprio.

           Esta mesma dinâmica também gera um outro tipo de piada sobre o qual o longa-metragem se sustenta e que me parece ser talvez a proposição mais significativa do filme: a dinâmica entre a arte cinematográfica como feito individual e coletivo (tema que, de alguma forma, está em sintonia com a organização rachada entre o todo do município e o sonho de Edna). Como pode o cinema ser uma arte fundamentalmente coletiva (um empresta a câmera, o outro organiza o set) ao mesmo tempo em que a parca ilustração do luto individual de alguém? É menos o fardo das dificuldades econômicas (elas surgem, mas não são paralisantes; são dribláveis com um ou outro telefonema) e mais sobre os obstáculos e contratempos que o ‘intimidade é foda’ gera, as vicissitudes de uma arte que exige, primordialmente, do conjunto que desvirtua (redireciona, molda?) sempre o propósito inicial. Então, um disfarçado elogio do isolamento e recrudescimento do grupo? Não é bem assim.

              Cervejas no Escuro é mais como a resposta que Howard Hawks deu a Fred Zinnemann já na cena inicial de Onde Começa o Inferno (1959): amigo dá problema, mas não dá pra fazer tudo sozinho. Quando Edna larga de mão o filme, desiste e vai assistir a sua novela, cabe aos outros terminá-lo, inscrevê-lo no festival, concluir o sonho alheio de dar forma a seu luto. Não é que a estética mambembe sirva ao propósito de um discurso sobre as dificuldades de realização, nem que ela dê ao filme ares da graça do ‘dar errado’ na execução de um filme, tanto quanto somar às intromissões do coletivo que geram os gags cômicos, o trabalho seminal de concluí-lo, mostrar a amizade e o afeto comunitário que o perpassam (também ela vai entregar o prêmio a outra concorrente que defende uma causa extracinematográfica, depois receber de outrem as chaves de sua nova casa) e a dinâmica de permuta, solidariedade e ajuda mútua que, aqui e acolá, fazem a coisa rolar de um jeito atabalhoado. Uma ética do ‘se ninguém faz por nós, nós faz’. Ora, mas então a vida comunitária como forma de ajuda mútua, distante do Estado, não teria a ver com a independência cangaceira de 1930, o tema das duas coisas diferentes não tem alguma espécie de afinidade eletiva comum? Talvez sim, mas também talvez não. E Cervejas no Escuro é afinal a proposição de um filme coletivo? Talvez sim, talvez não. Ao invés de fazer este tipo de pergunta, o melhor diante das telas é desfrutar o quanto for possível deste simples, às vezes estranho e inesperado, mas bem contente, frankenstein.

Janeiro, 2023

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