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Olhar adiante

Não! Não Olhe! (Jordan Peele, 2022, EUA)

por Marcelo Miranda

     O terceiro filme de Jordan Peele ilustra um encontro entre Alfred Hitchcock e M. Night Shyamalan atravessado por urgências e inquietações levadas ao mainstream de Hollywood nos anos 2020. Significa que Não! Não olhe! (2022) tem lá sua carga de tributo a alguns nomes que modelaram o imaginário de Peele (poderia incluir ainda Steven Spielberg e Rod Serling), mas todos entram reconfigurados para o que faz de seu cinema algo bastante singular no cenário audiovisual popular de hoje. Assistir ao filme é perceber uma série de procedimentos familiares, os quais o espectador mais ativo reconhece logo de imediato, porém apresentados de um jeito algo torto, estranho, insólito, como se fosse igual, mas diferente. Desde o prólogo, só explicado bem adiante na narrativa, a sensação é de que alguma coisa está fora do lugar mais tradicional de um enredo como esse, que convencionalmente seria “apenas” a história de um pequeno grupo de pessoas a enfrentar uma invasão alienígena. 

     O estranhamento inicial da história do chimpanzé enlouquecido é a tônica de Não! Não olhe!. É por essa trama em paralelo que o não-visto é incorporado ao drama central dos irmãos OJ (Daniel Kaluuya) e Em (Keke Palmer), obrigados a lidar com um aparente fenômeno sobrenatural que inicialmente se manifesta por algo que eles não conseguem vislumbrar. Se no cinema de Shyamalan – em especial Sinais (2002), A Vila (2004) e Fim dos tempos (2008) –, a ameaça não-vista se configura a partir de crenças que o entorno dos personagens nos fornece, sejam notícias no rádio, histórias orais ou informações da TV, em Jordan Peele ela é manifestada pela percepção da própria presença da ameaça nos céus da fazenda e da crença muito rápida de que, para o fenômeno de fato ser comprovado, é preciso registrá-lo em imagens. Não! Não olhe! desloca a resistência em prol da sobrevivência vista em Shyamalan para a perseguição da performance, o sucesso midiático, a legitimação metaforizada no programa da Oprah Winfrey, aqui sendo como a Moscou em Tio Vânia (peça de Anton Tchécov), para onde os personagens querem ir como lugar utópico e idealizado que os irá acolher. 

     No filme de Jordan Peele, portanto, o não-ver é a premissa, mas não é desenvolvimento. Rapidamente o espectador enxerga a ameaça, inclusive por dentro de suas entranhas, e com isso pode compartilhar com ela a sua grandiosidade e perigo. OJ, Em e a pequena turma de aventureiros que se forma em torno deles não conseguem, pelo menos até o último instante de filme, captar a imagem definitiva da ameaça, mas Jordan Peele faz isso por eles com generosidade no mínimo por metade da duração de Não! Não Olhe!. É como se, ao não esconder a ameaça [como faz Shyamalan em Sinais ou Spielberg em Tubarão (1975)], Peele já desde sempre não permita que seus personagens possam ser questionados. Qualquer lastro de ambiguidade é retirado do filme, cabendo ao público compartilhar com OJ, Em & cia os desdobramentos de suas ações e ambições. 

     É um gesto fundamental do criador, especialmente ao pôr em cena uma família de pessoas negras que, desde o começo, é tratada com certo desdém e olhares tortos pelos artistas e técnicos brancos do set de filmagem (que são alegorias, em certa medida, de parcela significativa do público branco de um filme como esse). Sente-se a relação racial de fortíssima tensão que Peele domina com brilhantismo na mise-en-scene e tem em Corra! (2017) sua maior representação. Não se tem, portanto, um filme de dúvidas, e sim de afirmações – de gestos, de olhares, de verdades, de crenças, de ações. A sequência em que OJ corre a cavalo tentando “domar” a criatura voadora em seu encalço é uma espécie de refilmagem moderna da fuga a céu aberto do publicitário Roger Thornhill (Cary Grant) de um avião de pequeno porte em Intriga internacional (1959), porém com todos os sinais trocados. Agora quem está em solo é o jovem trabalhador negro do interior da América; ele é quem busca enredar quem está no ar, e o ser voador é vislumbrado claramente pelo espectador, sem maiores enigmas que não sejam sua origem ou procedência.

     Quando finalmente Em consegue fotografar a criatura voadora, o filme parece se importar menos com isso do que a transfiguração da história em mito. O final, o mais otimista dentre os três filmes de Peele até aqui, acumula a ameaça contida, a família resgatada, a imagem registrada e as sobras dos cacos materiais e afetivos, tudo bastante objetivo. Não há a mercantilização do trauma ou o aprisionamento em dores do passado, como tem sido praxe em estopins de alguns filmes de horror e ficção científica nos últimos anos. Em Não! Não olhe!, apesar do título em português, olhar adiante, para além da poeira, é o que modula o futuro.

Outubro, 2022

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