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Fuga e Abstração

Sofia Foi (Dir.: Pedro Geraldo, 2024, SP)

por Pedro Henrique Ferreira

                O título de Sofia Foi deixa à vista duas coisas que reverberam no filme. A primeira delas é que o destino de sua protagonista é o desaparecimento, o fenecimento, o mergulho no nada, o ‘foi' de ir embora. Este parece ser o desejo da jovem estudante da USP desde o início, na primeira cena que revela o presságio de uma morte. A menina vai com o cachorro até um riacho e deixa-o amarrado a uma árvore. Em princípio, parece um passeio ou piquenique. A câmera fica com o cão, e o seu suicídio é relegado ao fora-de-campo, à faixa sonora, sempre preenchida pelos sons do ambiente. Há um desaparecimento, um mergulho sem volta. Esta é um pouco a estratégia poética adotada pelo longa-metragem como um todo: as ações de Sofia são a de uma personagem em perpétua fuga e movimento, que pula muros, atravessa fronteiras, abandona apartamentos, cruza as barreiras geográficas da Universidade, dorme aonde precisa, encontra algum outro estudante rapidinho e vai embora. Pouco ou nada retêm, sua carteira é roubada, talvez sua identidade com ela. Errante, em nenhum momento parece saber muito bem para onde vai e o que quer. Só que o olhar do diretor concentra-se mais no que fica ao invés de fazer-lhe perseguição - os espaços anódinos de uma São Paulo menos urbana, circunscrita ao campus da USP e seus bosques, aos corredores e pilotis vazios rodados em horários desopilados; toda uma imobilidade registrada através de um cadência rítmica vagarosa, repleta de tempos mortos e silêncios que são preenchidos pela ambiência natural na faixa sonora. A câmera estática sempre a permite desaparecer, e a janela reduzida em 1.33 contribui para dar-lhe pontos de fuga. 

                A segunda coisa que fica clara no título é que interessa mais para onde ela vai do que de onde ela vem. Não sabemos muito do seu passado, dos seus vínculos familiares, o que ela estuda, seus sonhos e anseios, etc. A rigor, nem sabemos tanto dos seus sentimentos. A dramaturgia investe numa personagem mais opaca que foge a qualquer espécie mais peremptória de definição, enfatiza pouco sua subjetividade, e ignora a maioria das dimensões materiais envolvidas na sua vida. Não sabemos se é rica ou pobre, se tatua por necessidade ou por desejo, e de nada que precisa ou enfrenta para sobreviver, etc. Todas as relações econômicas são imediatamente ignoradas em detrimento da construção de uma poética da abstração, o retrato de uma enorme angústia que só é justificado numas poucas penas - no diálogo que fala da amiga morta, ou mais importante, no flashback em que está namorando à beira do açude onde mais tarde se mata. As arestas dramáticas são todas implicitamente construídas em torno do amor perdido, pois ainda que sua personagem esteja em rota de fuga, Sofia Foi é no fundo um filme imbuído de nostalgia e impossibilidade de esquecer, uma obra sobre as memórias que ficam inscritas na matérias, talhadas no corpo como as tatuagens que ela faz, ou o coração desenhado no caule da árvore. Embora ele opere em cima de toda uma languidez formal, à partir de um tom ao mesmo tempo melancólico e terno, é desta situação romântica um tanto tradicional e burguesa que ele extrai sua afabilidade. É por isto que seu mergulho no açude nada tem de propriamente político, nada do retorno à natureza contra o vilipêndio da civilização (Boudo ou Mouchette) e nem da ascese do corpo transfigurado em espírito (o Kobain de Van Sant). Alias, o que ele tem de emulação à Van Sant nos esforços formais, tem o dobro de Guadagnino na sua visão de mundo.

              Dentro deste escopo, Sofia Foi até que vai bem. Os trabalhos de tableaux em cima de tempos mortos, os retratos lacunares de pessoas e espaços, e todo a vibe de melancolia juvenil tem algo de tocante. Só que é impossível não perceber que toda a atenção dada à construção deste mood deixam passar batido um certo esforço de enraizar a experiência no mundo concreto das relações interpessoais, genealógicas, econômicas, etc. O resultado é um mergulho no abstrato, no não-mundo. Talvez por isto que a personagem fuja, desapareça no limbo, porque ela nunca esteve verdadeiramente em lugar nenhum; o único dado de identidade fornecido é o relacionamento com a outra menina que se vai. É claro que Sofia Foi não está sozinha nisto. Já vimos muitos personagens assim no cinema brasileiro contemporâneo recente (todas as verdadeiras lições neorrealistas jogadas fora, a abstração do modelo de filmes mais tradicionais perpetuando-se no campo de autor por vias um tanto improváveis), e é revelador que tenha obtido uma das recepções mais entusiasmadas e calorosas da Aurora. Daí talvez esteja, ironicamente, o seu maior mérito, a sua capacidade de condensar de forma ímpar a própria abstração que lhe condena. 

 

Janeiro, 2024

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